TOTONHO E OS CABRA _ SAMBA LUZIA GORDA

  

“Totonho, cadê um disco novo?” comecei a conversa faz algumas primaveras, ao que respondeu “Topas produzir?”. E aqui estamos com SAMBA LUZIA GORDA saindo de forno prensado feito galinhada com temperos todos bons como na receita de mãe, com carinhos tantos de mãos amigas, com gostos, sons e visagens à moda do Cabra de Monteiro, pulsando quasares estelares em seu recôndito sertão do espaço sideral.

Depois de mais de 12 anos do último rebento sonoro sabotando satélites é impressionante a energia e o carinho com que os músicos especialíssimos convidados para gravar e compartilhar a feitura/fritura do disco [aos montes e muitas vezes mais que um por música.!.] declaravam o afeto e gosto profundo pela poesia figural e cantos fundos aboiais de Totonho. André Abujamra leva a verve pagodeira de VAI NEVAR tomar banho de mundo e sopros de outros orientes, enquanto Manoel & Felipe Cordeiro e Mbeji destilam cordas e tambores em disparada para JUDIALVA. Rica Amabis programa UNZINHO ORIENTAL para lombrar cavacos e o Quinteto da Paraíba com Rodrigo Campos evocam O SAMBA camarístico popular. A CARIOCA rasga e liga imagens-sons-devaneios diretamente de Dubai ao Samba-rock paulistano com Cassiano Ziriab e Nereu. Moreno Veloso aporta de voz e cuia e cello em MINHA GATINHA NÃO, enquanto David Cole mixa e reinflama Tem Mais Igreja do Que Supermercado. macumba ponto coM faz um corte transversal atlântico negro do Cariri a Cuba com o mestre Jorge Ceruto. E fechando o disco para abrir o baile as chicas do Mbji e o irmão Otto mashupeam AMASSAR A LATARIA com TESTE DE DNA.

SAMBA LUZIA GORDA soa como muitos discos, talvez engavetados por tantos dias nos cantos, goelas e gavetas mentais de Totonho. É samba mais terreiro com quinteto de cordas, é macumba cubana, Allegro ma non tropo, melancólico quase de mentirinha, urgindo política pelo escape da poética, vão paradoxo, gritando que poética é ato político sempre e cada mais vez.

O trabalho de emulsão alquímico na produção musical de Maurício Tagliari, a partir dos laboratórios  da sua resiliente e generosa YB MUSIC, é o que garante liga e entrecruzamento entre os vários tempos e andamentos, propriamente estados climáticos, do disco numa época de volatilidade exponente e redial, para dar mão de disco cheio fazendo como fermento aglutinar e crescer sons dos sambas de Luzia Gorda.

SAMBA LUZIA GORDA chama assim pra sambar na baixada, bater coco em Monteiro, repicar tambores libertos em Cuba e levantar poeiras estalares de cá e acolá a soar. Samba Luzia, nina Totonho menino-homem a rodar mundos. 

Carlos Dowling.